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Denunciam uma «seita paramilitar e esotérica» em Pocitos, mas seus dirigentes dizem que é uma escola de filosofia

uy2022,Idioma original: EspanholLer no idioma original
Autor: Sebastián CabreraEditor da seção O Passa e motorista do podcast A semana explicada
Tradução automáticatestemunhos contra a Nova Acrópole

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Foto: Juan Manuel Ramos.

Foto: Juan Manuel Ramos.

Lembra-se do texto de memória. Passaram muitos anos, mas Daniella Scuadroni fecha os olhos e diz: “Na presença da minha alma imortal e da de meus colegas na busca da sabedoria, me comprometo a mim. servir de lealdade e eficácia e, se assim não o fizesse, que o destino, os deuses e o meu comando nacional me reprochem”.

Isso disse em seu compromisso de lealdade, quando foi admitida como parte das Forças Vivas de Nova Acrópolis, uma organização que se apresenta como cultural e filosófica, mas que é apontada por especialistas e ex-membros como uma seita. Não só aqui: foi fundada em 1957 pelo argentino Jorge Ángel Livraga e sua esposa Ada Albrecht E, espalhadas por todo o mundo, está presente em 54 países. No Uruguai tem duas sedes, uma em Pocitos, outra em Colônia.

Daniella entrou nos 14 anos após uma Conferência sobre alquimia Mas só aos 18 passou a integrar as Forças Vivas. Esse dia vestia um uniforme azul e uma impressionante pulseira, igual a todas as pessoas que a rodeavam. Estava de joelhos frente a um estandarte com uma águia e com a mão direita levantada.

Foi acropolitana, como lhe chamam os integrantes dessa organização, por 11 anos. Saiu em 2014 mas levou-lhe um bom tempo processar tudo o que lhe aconteceu. Hoje, com 33 anos, lembra:

Eu não planejava ir jamais. Era melhor morrer antes que deixar Nova AcrópolisDisseram-me que ia mudar o mundo. Não era Daniella, eu era acropolitana.

Daniella Scuadroni, exintegrante de las Fuerzas Vivas de Nueva Acrópolis. Foto: Estefanía Leal.

Daniella Scuadroni, exintegrante das Forças Vivas de Nova Acrópolis. Foto: Estefania Leal.

O Dicionário Enciclopédico das Sectas, escrito pelo falecido sacerdote espanhol Manuel Guerra e talvez a obra mais completa que existe do tema em castelhano, define a Nova Acrópolis como uma “secta esotérica, neopagana e paramilitar, de impronta teosófica”.

A fachada, explicam ali, é a realização de cursos de temas variados, como filosofia, artes marciais e voluntariado. São “anzuelos”, ao dizer de Guerra. Mas com o tempo alguns são animados a integrar-se a uma estrutura escondida de uma organização que busca criar um “mundo novo e melhor”, com suas Forças Vivas (que incluem as brigadas masculinas ou de trabalho, as femininas, bem como o corpo de segurança). Há também um grupo seleto de líderes a quem se chama hachados, que têm um compromisso maior.

Para entrar, há que pagar um “diezmo”, que varia entre 1.200 e 1.700 pesos mensais segundo o lugar que ocupe a pessoa, além de doações específicas e a obrigação de trabalhar um mínimo de três ou quatro horas diárias. A maioria faz isso a partir da tardecita, depois que sai de seu trabalho ou estudos. Hoje são 112 membros.

Assim vestem os membros das brigadas

Nas atividades internas os membros das brigadas masculinas ou de trabalho - que se encarregam de reparar coisas, entre outras tarefas - vestem de camisa e gravata marrom claro, sapatos e pantalon preto. Fazem desfiles e exercícios de controle mental e de defesa pessoal. Eles carregam uma pulseira laranja. Os integrantes das brigadas femininas, pollera azul e blusa branca. A pulseira é azul escuro. Elas se ocupam sobretudo do social e manter “a beleza” dos lugares.

O distintivo dos “hachados”, que têm um nível superior, é um machado. Vistem calças, camisa e gravata preta. Eles usam um prendedor com forma de hacha, ao que vão enredando cadenitas de ouro à medida que suben de grau.

Os integrantes do corpo de segurança, portanto, podem levar armas, segundo o Dicionário Enciclopédico das Sectas. No Uruguai em algum caso muito específico o fazem, segundo soube El País. O uniforme dos membros do corpo de segurança diz esse livro escrito pelo sacerdote espanhol Manuel Guerra, coincide com o das SS nazistas. Eles carregam uma pulseira vermelha com uma S e uma seta. O cargo de chefe de inteligência pode ser conhecido, mas suas atividades devem ser secretas, bem como seus contatos.

Brazalete de los cuerpos de seguridad de Nueva Acrópolis.

Brazalete dos corpos de segurança de Nova Acrópolis.

Luis Santamaría, especialista espanhol em seitas, responde a El País desde a cidade de Zamora e relata que Nova Acrópolis tem “uma aparência externa de associação cultural” e “uma realidade interna de grupo iniciático de doutrinas ocultas”.

Por que é uma seita?

É um grupo que tem uma dupla realidade — diz este pesquisador da Rede Ibero-Americana de Estudo das Sectas. A interna é uma escola esotérica para ir ensinando os adeptos sucessivos mistérios. Esta é uma característica própria das seitas: os procedimentos de captação com esse engano e as técnicas de persuasão. O mesmo a progressiva ruptura com as relações sociais anteriores, algo que numa organização cultural não deveria passar. E então a pessoa vê difícil sair ou nem sequer se levanta a saída porque o mundo exterior é ruim.

- O que os líderes procuram?

- São os eleitos. Eles estão convencidos dessa verdade, muito elitista, destinada a muito poucas pessoas. Querem chegar a um sistema social e político acropolitano em todo o mundo, com ressonâncias da Grécia e da Roma da Antiguidade clássica.

Ao não haver, salvo casos pontuais, denúncias de abusos sexuais ou problemas de dinheiro, é complicado encontrar um crime concreto, explica Santamaría, e diz que a manipulação psicológica ou persuasão coercitiva “es complicada de demonstrar” e “vergonçante para quem passou pela experiência”.

Os segredos.

“Invoco os Deuses Imortais para que os dem a todos a Luz e a capacidade de trabalho indispensáveis para percorrer o caminho escarpado que leva da Terra ao Céu”, diz o Manual do Líder, escrito por Jorge Ángel Livraga em 1976. Em outra parte menciona que há três símbolos fundamentais: a águia, o fogo e o machado. Mas esses símbolos não os vêem quem vai às palestras de filosofia.

No Dicionário Enciclopédico das Sectas, Guerra afirma que quando os acropolitanos negam algo de sua estrutura interna que lhes é imputada, segundo eles não mentem, pois “se limitam a defender um de seus fundamentos, o de guardar o segredo para evitar partilhá-lo com os não preparados para isso ou com aqueles que podem mancillar”. O interno, o esotérico, está reservado para “a sabedoria dos eleitos”.

O que você pode se comunicar a todos, “o exotérico”, é “como a máscara com que há que se apresentar diante dos não iniciados”. Revelar um segredo acropolitano é “catalogado como uma traição”.

Não é uma religião, mas parece-lhe. Um dos segredos é que os acropolitanos acreditam que a vida está marcada por “elementais da natureza”. O que são? Os elementares do fogo são as salamandras; os do ar, os sílfides e os elfos; da água, ninfas; os da terra, os gnomos. Eles também acreditam no aparecimento de uma nova raça, que lhe chamam a “sexta subraza”, dotada do “sentido da clarividência ou percepção do invisível e inatingível para os sentidos”. E dizem que num momento o planeta começará um “prolongado processo de desintegração”.

Sede de Nueva Acrópolis en Pocitos. Foto: Juan Manuel Ramos.

Sede de Nova Acrópolis em Pocitos. Foto: Juan Manuel Ramos.

Guerra fala de uma seita “paramilitar de sinal neofascista”. Na verdade, um relatório de 1985 do Parlamento Europeu sobre o fascismo e o nazismo menciona a Nova Acrópolis. Há alguns elementos que explicam esta definição. A saudação oficial acropolitano, “em privado, nunca em público”, é o braço alto com a palma da mão estendida para baixo, dedos juntos e em um ângulo de 45 graus em relação ao corpo. A águia de asas implantadas em posição ascendente é semelhante à águia nazista, diz Guerra. E os treinos, vamos ver, são muito duros.

Entre as obrigações dos acropolitanos figura “estar sempre disponível para a tarefa que lhes é dada”, ser moderados no álcool (“tem a elegância de não cair na beodez, que estupidiza as pessoas), em fumar e na sexualidade (a castidade é um ideal aconselhável e num texto do fundador se aconselha “não entregar ao desenfreno”). É recomendado o vegetarianismo, afastar-se da política (“as posições políticas atuais estão vazias de conteúdo espiritual”), afastar-se “de drogas, homossexuais e ladrões”, ter pouca relação com pessoas de fora, dedicar-se à captação de simpatizantes, dar palestras e organizar seminários de diferentes temas, desde arqueologia e esoterismo, à Índia, Platão e os mistérios do Tibete. É obrigatório fazer um curso de oratória e colar cartazes de difusão por toda a cidade.

E o que dizem de Nova Acrópolis? No site afirma-se que os princípios são os de fraternidade, conhecimento e desenvolvimento do ser humano. Sua diretora é Gabriella Feola, uma química de 66 anos que ocupou cargos na Intendência de Montevidéu (IMM) na década passada, foi diretora de Unidade de Resiliência e do Serviço de Avaliação da Qualidade e Controle Ambiental. Conoció Nova Acrópolis em 1994 por um companheiro de trabalho na IMM, que a convidou a participar. E nega qualquer acusação de seita. “Não temos nada a esconder”, diz e ri quando responde por telefone ao El País.

A versão que dá Nova Acrópolis a contaremos no final deste artigo. Antes disso, para entender melhor as denúncias é imprescindível conhecer os testemunhos dos que estiveram dentro e saíram.

A ESTRUTURA

O comandante e o guardião dos selos

A escalafone acropolitano tem diversos peldanos. Acima de tudo está o comandante supremo mundial (que hoje é o espanhol Carlos Adelantado), depois o continental e nacional. Leva um hacha de ouro maciço com “uma esmeralda multifacética incorporada num lado da cabeça do hacha”. Depois vem o guardião dos selos ou vice-diretor geral, que porta um machado com cabeça de ferro onde figuram “duas mãos douradas guardando uma chama”.

No outro extremo, o primeiro passo é o “probacionismo”, onde a pessoa está à prova e recebe lições de filosofia, sociopolítica, a reencarnação das almas, o budismo, Plotino, o Novo Médioevo “que acabará com a democracia” e o bem-estar ocidental, emte outros temas.

As histórias.

Martín entrou de adolescente e encontrou-se com um mundo agradável, com caras felizes, onde prestavam atenção a tudo o que dizia, embora já no início lhe surpreendeu que nos cursos de filosofia se falasse de temas esotéricos sem dar espaço ao debate.

—Anhos depois me saberia que eles até têm um secretariado de integração que se dedica a analisar as pessoas e ver quais atividades podem propor com base na personalidade, para enfiá-los —conta este exacropolitano, em entrevista com El País em um bar do Centro de Montevidéu, e pede não ser identificado com seu nome real: tem medo das represálias. Você está muito desprotegido diante dessa estrutura, há um forte mecanismo de manipulação.

Ele aprendeu que era mais importante ir a Nova Acrópolis que passar tempo com seus amigos e familiares e o educaram em que o correto é que “um ser evoluído” faça coisas que não quer fazer “em pos do bem comum”. Embora nessa época se sentia bem e apoiado, em uma transição muito sutil começavam a inculcar ideias como que a dúvida era negativa, própria de “kama-manas”, a mente egoísta. Ele também aprendeu “a ideologia da obediência”.

- Quem sabe, sabe, e não o questionou.

Alguns anos depois disseram que Jorge Ángel Livraga é um “ser semidivino, um desses personagens que, através do seu desenvolvimento espiritual, captaram as verdades eternas”. E os que seguem também são seres especiais. Que o mundo está “em uma corrupção brutal” e que teria que ser “como aí dentro”, como em Nova Acrópolis.

Eles acreditam que estamos na Idade Média, que vai colapsar a civilização e que só vai sobreviver Nova Acrópolis.

Não foi de um dia para o outro, mas chegou um momento no qual só se relacionava com pessoas da organização, radicalizou-se e olhava “torcido” para os de fora:

— O problema é que as coisas mais escuras introduzem quatro anos depois, quando você quebrou os laços com todo o mundo e sua vida está metida lá.

"O que é o mais escuro?

— Entraste pela filosofia e abertura mental e no final falam de obediência. E eu tenho que aceitar. Porque o custo para ir é muito grande. E é paulatino o processo pelo qual te vão coartando a racionalidade e onde te deixam claro que questionar algo é estar em falta. E depois leés os textos do fundador, que tinha admiração por Hitler, Franco e Mussolini, como pode ser que tantos anos depois eu me inteiro o que pensa da vida?

Una sala de la sede de Nueva Acrópolis. Foto: Juan Manuel Ramos.

Uma sala da sede de Nova Acrópolis. Foto: Juan Manuel Ramos.

O convite a pertencer ao círculo interno, as Forças Vivas, foi um processo longo que terminou nas chamadas “testes de campo”, que em alguns casos (não todos) podem ser traumatizantes. No Uruguai se realizam na “villa romana”, uma casa de campo em Pirarajá, Lavalleja.

A viagem é em silêncio estrito sem saber aonde vão, ao chegar se leem escritos do fundador e depois os vendam os olhos. Entre outras provas onde os aspirantes estão nus, os fazem pega-se de uma corda que significa “o caminho dos mestres, ou seja Nova Acrópolis” e os tiram para um lado e para o outro; os enterram um rato num poço com um centímetro de terra acima da cabeça até que soa um chifre; os levam a um lago e metem a cabeça na água; os fazem subir a um lugar e saltar para o vazio sem saber onde termina, até cair na água. E tudo assim.

— O mais humilhante é que eu o aceitei — diz, resignado.

No final, quando já era um membro das Forças Vivas, esteve duas horas sentado olhando a pulseira e entrou para uma sala onde todos estão formados e há que fazer o famoso compromisso. Depois, pediram-lhe para não trair “o ideal e os professores” e deram-lhe um simbólica cachetado.

— educam-te nesse terror. Eles jogam com o caramelo e o pau, mas cada vez há menos caramelo e mais pau. E num momento é tudo pau: sempre que você tenha algo que a seita não lhe convém, você é um egoísta que não pensa nos outros —relata Martín—. Eu me lembro perfeito do momento exato em que pela primeira vez pensei em ir e me aterrei do meu próprio pensamento.

E, quando no final se foi, começou um “martirio” pessoal para poder seguir adiante, chorava todas as noites e teve que ser assessorado por um psicólogo.

A história de Ana, de 35 anos e cujo nome também foi mudado para preservar sua identidade, é bastante similar, mas ocorreu na Espanha. Entrou por uma conferência de um psiquiatra e esteve 10 anos. Saiu faz seis. Conta sua história para El País enquanto viaja no metrô:

Eu estava muito fanatizada. Eu ia todos os dias, de segunda a domingo. Tinha deixado amigas, família e estudo. Eu só pensava na seita. Todo o meu tempo por fora do trabalho o dedicava a isso.

Fez de tudo, desde limpar a sede, “jeitar” o site e fazer as relações públicas. Depois deu aulas e aí teve os primeiros problemas por choques com seus professores.

Porque no início você está como em um sonho e você acha que você é a escolhida para salvar o mundo – explica. Acabas acreditando que o líder Jorge Ángel Livraga é um enviado de uns seres espirituais, que se chama a hierarquia branca. Mas você entrou lá para outra coisa e termina assim, então é uma seita a 100 por 100. Há muita coerção psicológica.

Sua experiência nos testes de campo foi igual ou mais complicada que a de Martín. Relata que o pegaram e o fizeram dar-lhe cachetadas a uma companheira (“e se você ia flojo, te gritavam que fosse forte”), mas não podia expressar dor. O pior, diz, foi quando no inverno a levaram à montanha, a taparam os olhos, a nua e a metaram num rio com água congelada.

- Com que objetivo?

Não nos diziam. Você só tinha que obedecer. Depois, eu me enterei que era para controlar as emoções.

Quando foi, disseram-lhe que “apagava a alma”, que sua alma “estava escura”. Teve que refazer sua vida: estava sozinha e tinha 29 anos. “É difícil, porque sais pensando que o mundo é ruim”, diz, “me custou voltar a confiar”.

Voltemos a Montevidéu. Em sua casa da Cidade Velha, acompanhada pelo namorado e seus três gatos, Daniella lembra que tentou captar todos os seus amigos.

- Por sorte não consegui. Invitei conferências e recitais. Iban para me bancar, mas não ficavam porque não lhes interessava - ri-se. Mas em Nova Acrópolis começaram a falar mal deles, diziam-me que eram todos raros, que me passava saindo... Eles me consideram quase como traidora por ter amigos fora.

Daniella Scuadroni. Foto: Estefanía Leal.

Daniella Scuadroni. Foto: Estefania Leal.

Diz que também se metiam com o estético e pediam que não vistiera em forma desprolija, que fosse mais feminina e elegante, sem “mostrar de mais, sem ser sexy”.

E resume:

— Tudo o tempo pressionavam por tudo, por como te vestiias, pelo que fazias, o que falavas.

Mas ela tomava “as pressões” como provas. Anos depois de sua saída de Nova Acrópolis, que se acelerou depois que alguém subiu no Facebook fotos dela tomando álcool em um acampamento e disfarçado de vampiros com seus amigos, e onde também incidiu uma forte depressão que sofreu, tornou pública sua má experiência através de diferentes vídeos em redes sociais. Tanto que se transformou em uma referência do tema e no último ano escreveram dezenas de pessoas a partir de todo o mundo. Sua saída, diz, foi “um cimbronaço de liberdade”. Hoje vive de dar aulas como treinadora pessoal.

Bombardeio de amor.

Quinta-feira, depois da oito da noite. Na recepção da sede há gente que entra e sai, alguns que vêm a cursos, outros que são membros das Forças Vivas e dedicam boa parte de sua vida à organização. Na volta está Angkor, um juguetão cão labrador que os acropolitanos resgataram da rua, segundo contam.

Eles sorrim amáveis, edulcorados. Na casa de Franzini e Scosaria tudo está ordenado e pulcro.

Em uma parede levanta-se a enorme biblioteca Plotino (pelo filósofo neoplatónico) classificada segundo diferentes categorias, como textos sagrados, filosofia chinesa e esoterismo. Uma acropolitana consegue flores e então aparece — também sorridente, claro — Feola, a diretora, acompanhada por Mauricio Ponte, que é diretor do centro de Pocitos.

Ele veste uma remera preta com o logo de Nova Acrópolis. Ela uma blusa colorida e leva uma pendurada com uma pequena hacha. Também um ankh ou chave da vida e um escaravelho, dois símbolos egípcios. Seu sorriso transmite paz mesmo que seu rosto vai mudar durante a conversa. Mas no início não: sempre que há um visitante novo, corresponde o que chamam de “bombardeio de amor”.

Gabriella Feola y Mauricio Puente de Nueva Acrópolis. Foto: Juan Manuel Ramos.

Gabriella Feola e Mauricio Ponte de Nova Acrópolis. Foto: Juan Manuel Ramos.

— Vou pôr a gravar — diz Feola e põe seu celular acima da mesa.

— Há denúncias de que Nova Acrópolis é uma seita.

— que tenhamos conhecimento —responde Ponte — há um blog onde falam cinco pessoas com nome e sobrenome que dizem isso.

— Sempre há pessoas discordadas —agrega Feola —. Às vezes não nos compreendem, ou não encontraram o que buscaram e se frustraram.

Mas há coisas que se repetem nos depoimentos: que há uma fachada de cursos e que depois se tenta captar para integrá-los às Forças Vivas.

— Primeiro, não captamos ninguém — diz a diretora —. E não temos nada a ver com seitas: o que se quer ir, vai. E o que volta, volta.

- Está claro que é livre, mas eles dizem que há um momento em que a decisão de sair causa terror.

— Ai, essa é uma visão extremamente subjetiva. Já sei de onde vem. Não é assim —responde Feola—. As pessoas se comprometem a vir. Não avassamos nem tentamos que se saibam de seus familiares.

— Mas num texto da Livraga pede-se: "Empeça a quebrar cadeias inúteis com amigos e amigas que não participam do seu ideal apesar de conhecê-lo, e com toda pessoa, seja quem for, que se oponha à sua atual visão espiritual, pois o manter essas relações velhas te fará dano a você e a essas pessoas, que ainda não despertaram como filósofos; que se envergonhariam de ti ou zombaria do que tens de mais sagrado: seu ideal acropolitano".

- Isso não é atual -responde ela. A instituição se adapta aos tempos.

Mas ele escreveu o fundador.

Bem, o fundador num momento histórico. Há coisas obsoletas totalmente.

— É como eu tirar um artigo do ano 70 do El País.

- São coisas diferentes. O Dicionário Enciclopédico de Sectas, de Manuel Guerra, define Nova Acrópolis como uma “secta esotérica, neopagana e paramilitar”.

Eles rim.

—Neopagana, paramilitar, nazista —dice Ponte—. Já que você é jornalista de pesquisa: o que escreveu isso é sacerdote, tem seu viés. Eles também consideram a masonaria como uma seita.

Sobre as duras provas de ingresso, ambos retiram transcendência e dizem que são “símbolos e cerimônias”, similares ao batismo da Igreja Católica.

— Não se despida a pessoa nem se mete dentro de um poço —dice Ponte.

— Nem maltratamos —agrega Feola.

- Parece bastante louco.

— Fora de contexto não se entende.

—Sabri — falam a uma garota na recepção — foi traumática para você o teste de terra, água, ar e fogo?

- Não, para nada. Lembro-me com carinho. Somos todos grandes — diz ela.

Termina a conversa e ambos oferecem uma visita pela casa de dois andares. No andar acima há três salas de aula e em uma parede um quadro do fundador, Jorge Ángel Livraga. Abaixo, um café, uma sala com quatro pessoas encarregadas das redes e outro espaço que funciona como sala de conferências e lugar para artes marciais.

A viagem termina mas falta algo.

"Posso ver o templo?

— Não, isso é reservado —respondem. Aqui estão os nossos símbolos.

Já não há sorrisos simpáticos.

JORGE LIVRAGA

Os textos do fundador

Jorge Ángel Livraga, fundador de Nova Acrópolis, diz no Manual do Dirigente, ao qual concordou El País: “Há que cuidar que os laços com os dissidentes não se mantenham por motivos sentimentais, porque se, estando no interior, faltaram às suas obrigações, é fácil deduzir que não entendem nem aman Nova Acrópolis. Gravar com imagens positivas e amigáveis é um convite para que outros sigam suas pegadas”. É uma mensagem clara de cortar laços, mas desde Nova Acrópolis as autoridades negam que esse texto exista. Em um de seus bastiones (textos), Livraga diz: “O sistema piramidal não constitui uma opção. O julgamento de autoridade não pode ser discutido”. Sobre ter filhos: “A um par de excelentes acropolitanos podem nascer filhos que depois se dediquem às drogas, à violência, à caçar fortunas com seus sexos, ou a... combater os acropolitanos. De tal sorte, o Hachado não deve sacrificar sua vida para engendrar possíveis inimigos”.