Resposta de Fernando Fernández-Fígares ao testemunho de Claire Martin
Nota: A autoria do texto não pôde ser verificada. Analisa‑se aqui tal como foi publicado sob a identidade que afirma ser a de Fernando Fígares, sem que isso implique qualquer garantia sobre a sua autenticidade. Não obstante, é totalmente consistente com a sua maneira habitual de exprimir‑se e com o seu conhecimento da situação.
No nosso blog, dedicado a dar voz a ex‑membros de Nova Acrópole, publicámos o testemunho de Claire Martin sobre a sua experiência na organização. Recentemente, Fernando Fernández‑Fígares, antigo Mando Nacional da Bélgica, respondeu em Réponses Philosophiques, qualificando o testemunho de "difamação" e exercendo um "direito de réplica".
Intimidação a ex‑membros através de ameaças legais
Da administração do blog queremos assinalar que a acusação e a ameaça legal que Fernando faz a Claire ("no dudaremos en dejar las cosas claras a través de los canales legales") reflectem exatamente o que já havíamos comentado num artigo recente: o uso do aparelho legal e dos recursos económicos de Nova Acrópole para intimidar e silenciar testemunhos, obrigando ao anonimato. Nova Acrópole conta com uma equipa legal financiada com dinheiro da organização, enquanto os ex‑membros carecem de recursos para se defender. Daniella Scuadroni, ex‑membro do Uruguai, documentou a denúncia que recebeu de Nova Acrópole (de 100.000 dólares) por explicar o seu testemunho de forma não anónima.
A réplica de Fernando
Os factos que Fernando refuta são antes mentiras e manipulações retóricas que são muito comuns em Nova Acrópole. Aqui iremos mostrando:
Texto de Fernando: 1° É totalmente falso afirmar que a família é um problema na nossa associação e que seria "um obstáculo para o ideal", já que cada um é livre de viver a sua vida como quiser e de tomar as suas próprias decisões; tal tem sido o caso não só do seu ex‑marido, mas também de inúmeros membros e dirigentes com altas responsabilidades na Bélgica e no mundo que têm família e filhos.
Aqui pode ver‑se claramente que os dirigentes de Nova Acrópole não têm nenhum tipo de problema em mentir. Mentem sem qualquer remorso, pois para eles defender Nova Acrópole é a primeira prioridade, sem restrição. O tema de não ter filhos em Nova Acrópole é algo irrefutável e que todo acropolista sabe perfeitamente. As principais razões que se inculcam aos discípulos para lhes proibir ter filhos são: • Sobrepopulação: Isto faz com que haja demasiadas almas na Terra, o que as impede de descansar no "devachan" (uma espécie de "paraíso" na filosofia oriental). Por isso, as almas nascem contaminadas, impuras. Em Nova Acrópole existe um termo coloquial para isto: diz‑se que nascem "rebotadas". Mesmo que uma criança seja muito rude, comenta‑se despectivamente: "este é um 'rebotado'". • Instinto de procriação: Procura‑se não nos deixar levar por ele, porque não representa a nossa alma mas unicamente a sobrevivência física, não espiritual.
Todo acropolista integrado nas Forças Vivas conhece estas doutrinas na perfeição. Contudo, para o comprovar realmente não é necessária teoria: basta aproximar‑se de qualquer filial de Nova Acrópole no mundo e poderá constatar que nenhuma mulher das Brigadas Femininas (mulheres pertencentes ao "Círculo Interno" da organização) tem filhos.
Existem algumas excepções: • Se a mulher descobre a gravidez demasiado tarde e não pode abortar; nesse caso, isto considera‑se uma desgraça para a discípula. • Se a mulher é dirigente, isto é, ocupa o topo da hierarquia e não tem um superior que lhe indique se deve abortar ou não.
Exemplo da segunda excepção: podemos apontar, precisamente, a irmã de Fernando como exemplo. Tratar‑se‑á da Sra. D.F.F., esposa do antigo Guardião dos Selos J.M.F.G., que decidiu ter um filho. Segundo ela mesma explica a algumas discípulas, entregou a criança nos braços de J.A.L. (fundador) para que o aceitasse, já que ela se tinha saltado a proibição. Embora aqui houvesse mais nuances, possivelmente económicas: JAL priorizava e dava permissividade a pessoas com dinheiro e reputação.
Texto de Fernando: 2° Refuto enérgicamente as acusações de machismo, misoginia, homofobia, feitas contra os dirigentes masculinos de Nova Acrópole, eu em primeiro lugar.
Sobre a homofobia, recolhemos algumas citações do fundador Jorge Livraga (JAL). Agora aceitam homossexuais porque não lhes resta outro remédio. Em caso contrário, e se fizessem públicas as suas verdadeiras ideias sobre os homossexuais, seriam acribilhados pela sociedade.
Texto de Fernando: Em perfeita sintonia com os objetivos e ações de Nova Acrópole, dediquei a minha vida a lutar contra as ideologias de exclusão de todo o tipo (racial, sexual, religiosa, etc.) como o demonstram os meus 48 anos de ação na Bélgica. Por isso também refuto com a maior energia o meu suposto interesse por Hitler ou Franco, assim como o de Jorge Ángel Livraga, o fundador do nosso movimento.
Aqui vê‑se de novo como fazem uso da mentira sem qualquer escrúpulo. As inclinações neonazis e neofascistas do fundador, assim como a sua predileção por Franco e pelo falangismo, são totalmente conhecidas apesar do ocultamento e camuflagem que Nova Acrópole tem vindo a fazer desde os anos 80. Diversos ex‑membros ao longo do tempo extraíram documentos internos da organização após a sua saída. Isso permitiu dispor de provas sobre tudo isto.
O conceito de Hitler na NA: considera‑se que Hitler era uma "encarnação histórica", isto é, uma pessoa que fora enviada pelos "mestres que guiam a humanidade", uma pessoa que tinha uma "missão especial" no planeta. E que dada a sua evolução, era capaz de canalizar símbolos e forças do mundo arquetípico.
A componente esotérica de Nova Acrópole estabelece que Hitler "se equivocou" e "falhou na sua missão de guiar a humanidade", e que um dos seus erros foi deixar‑se influenciar por pessoas que o levaram a cometer o Holocausto. Segundo essa narrativa, Nova Acrópole não está a favor do Holocausto. Ainda assim, em numerosos escritos, Livraga minimiza‑o e quando fala dele tenta compará‑lo com outras massacres que foram piores. Como que tentando justificar o tratamento injusto que foi feito a nível histórico em relação a Hitler.
Texto de Fernando: Sem dúvida atingida pela amnésia, a Sra. "Claire Martin" esquece mencionar que Delia Steinberg, a anterior directora internacional de Nova Acrópole, era judia, assim como outros eminentes líderes nacionais e internacionais, sem mencionar a perfeita integração de Nova Acrópole em Israel.
Este argumento é muito comum em Nova Acrópole e funciona como uma espécie de falácia de distração. Fernando utiliza essa conceção própria de Nova Acrópole para distrair do que realmente Claire está a denunciar. Além de não ter qualquer vergonha ou remorso nisso, também não hesita em tratar Claire de "louca".
Texto de Fernando: Quanto à questão dos voluntários, que está muito desenvolvida no blog do nosso detractor (...) Os nossos voluntários vêm, no máximo, algumas horas por semana para assistir às suas aulas e seminários. Alguns membros e a maioria dos dirigentes somam algumas horas em certos sábados ou fins‑de‑semana e o fazem de maneira completamente voluntária.
Aqui de novo mente sem escrúpulos. É bem sabido que Nova Acrópole exige uma entrega absoluta. Dado que em Nova Acrópole existe um número considerável de voluntários "externos" (que não fazem parte do "Círculo Interno"), recorre‑se à desinformação por comparação selectiva, mostrando apenas os casos que convêm para construir uma retórica manipuladora.
Texto de Fernando: Gostaria de aproveitar esta oportunidade para enfatizar que somos uma escola de filosofia e que não adoramos nenhum deus nem temos culto da personalidade. É verdade que temos um grande respeito por esta senhora, pela sua lucidez, pela sua profundidade e por ter consagrado a sua vida a trabalhar para desenvolver a filosofia no mundo, para lutar contra o separatismo, a exclusão e a violência.
Aqui voltam a fazer uso da falácia de distração. Eles não acreditam em deuses. Mas acreditam nos "venusinos", uns seres que vivem no planeta Vénus, e que estão num nível evolutivo mais elevado do que os humanos. São "os nossos irmãos mais velhos", os mestres que guiam a humanidade.
Sobre a directora Delia Steinberg: acreditam que é uma senhora que foi princesa numa outra encarnação. E que Jorge Livraga, o fundador, era um iniciado em Luxor (Egito), que aprendeu os mistérios da magia durante essa encarnação. Também acreditam que durante a sua juventude, Livraga recebeu instrução de uns "Mestres tibetanos invisíveis" que se apresentam no seu "plano astral" para contactar Livraga e instruí‑lo.
Factos do testemunho que permanecem sem resposta
• Exercícios coercitivos: "dar‑se bofetadas na cara com outra companheira, sem poder afastar‑se ou mostrar reacção", como exercício de domínio das emoções. • Estrutura hierárquica e simbologia: uniformes, hinos, marchas, saudações com o braço erguido, ajoelhar‑se perante estandartes, desfilar ao estilo militar, reinterpretacão de símbolos nazis e fascistas. • Entrega absoluta: juramentos de obediência e entrega total, pressão para priorizar o Ideal sobre a família ou a maternidade, medo de "desintegrar‑se" do movimento se se questionarem as ideias. • Vigilância e controlo: obrigação de entregar "relatórios mensais" onde se avaliavam qualidades como generosidade, sacrifício, devoção, mística. Acompanhamento constante do comportamento dos membros. • Isolamento social: afastamento de família e amigos, crença de que "as pessoas não eram capazes de compreender tanto quanto eu, o que fazia, o que vivia". • Abuso verbal e misógino por parte de dirigentes: humilhações públicas dirigidas a mulheres, Fernando chamava "tonta" à sua própria esposa durante conferências (Fernando refuta‑o dizendo que está felizmente casado há 34 anos, mas não desmente o insulto em si). • Exploração laboral dos membros: jornadas extensas de trabalho sem remuneração, incluindo colar cartazes, distribuir panfletos, limpeza de sedes e templos, estudo, ministrar aulas e assistir a conferências. Apresentava‑se como voluntariado, mas na realidade equivalia a um trabalho a tempo inteiro sem compensação. • Pressão sobre propriedades pessoais: os membros eram incentivados a ceder bens à organização, como testamentos em nome de Nova Acrópole, incluindo casas onde se montavam filiais. Isto gerava dependência económica e pessoal. • Financiamento opaco dos dirigentes: os dirigentes nacionais e internacionais beneficiavam economicamente dos membros, através de quotas crescentes e trabalho gratuito; além disso, os relatórios internos reflectiam despesas dos dirigentes, como viagens financiadas pelos membros e doações obrigatórias para a abertura de filiais.