Testemunho de Juliano o Apóstata. México
O GRANDE ENGANHO, 12 ANOS DEPOIS
por Juliano o Apóstata
Ao amigo que me disse que eu estava errado.
Nos seis meses finais de 2010 escrevi, na solidão do meu estudo, um livro focado na história, na doutrina e nos danos que causa a seita militante Nova Acrópole.
Os sons do teclar atravessavam o outono trazendo de volta as imagens do passado. Paisagens, cenas e experiências. O Grande Engano foi um encontro com minhas memórias e com o sabido no tempo da liberdade. Aquilo foi um alud de reflexões e investigações. Desejava compartilhar minhas vivências, minhas descobertas.
Ao somar páginas lembrava que, ao sair da Acrópole, refleti longamente por que me tornei parte e como fui defraudado. Mas ainda mais: ouvir, com o passar do tempo, os relatos sobre o agravo aos integrantes que permaneceram e aos que chegaram depois, inclusive a alguns que nasceram na seita, confirmou-me a utilidade social do que fazia.
Encaixava capítulos tendo constatado as marcas emocionais, os casamentos destruídos, as expectativas de vida frustradas, as maternidades arruinadas, a perda dos afetos, os danos morais, a dor e, sobretudo, o fantasma que os rondava: o de se sentirem responsáveis pelo sucedido, não a organização e seus líderes. Atingiu-me mais o que soube dos outros do que o que me aconteceu. Então procurei abrir um farol de advertência sobre as manipulações que faz a Nova Acrópole e oferecer esperança de que é possível sair e curar, por meio do ato fundamental de saber. O livro foi para dar voz a quem vive essas experiências em nível global e achar-lhes um pouco de justiça; não foi só para mim.
Verificando arquivos, pensava nas denúncias, reportagens, relatorias de comparecências na Europa. Sem diminuir-lhes o mérito, parecia-me que eu podia aportar um fio a mais ao profundo, pelo que me propus articular uma descrição em diferentes níveis, para alertar sobre as verdadeiras intenções e práticas do grupo fundado por Livraga Rizzi.
Muito aconteceu, mas ninguém esperava que O Grande Engano fosse profético. O descrito em suas páginas se corroborou por experiências dos integrantes da seita. Como antecipou o livro, Nova Acrópole México sofreu uma desbandada que quase a destruiu. Igualmente constatou-se que o culto ao poder que a seita tem é grave, inclusive para eles mesmos, porque possibilitou que suas dirigentes Lidia Pérez López e Esmeralda Osuna Lafarga se apoderassem da seita no país e lhe mudassem o nome, para criar uma facção chamada Inspira. Disse profecia? Não. Foi um prognóstico, baseado na lógica do mundo descrito e em sua atuação.
Não estou aqui para destruir uma seita. As seitas se destroem sozinhas.
Hoje, ao se completarem 50 anos do golpe de Estado no Chile, recordei a admiração de Livraga pelo ditador Pinochet. Na conjuntura dos dramas libertários considerei que podia oferecer este testemunho de fatos relacionados com o livro, mas ainda mais, para falar do presente e do futuro, contigo livre da seita.
En la ventana
Durante a primeira distribuição de O Grande Engano, Nova Acrópole teve uma reação de violência que implicou, em última instância, a ameaça implícita de matar. Não contarei os detalhes por serem delicados e implicarem a segurança dos afetados, mas tenho autorização para fornecer dados que te permitirão saber o que poucos ou ninguém soube por então.
Da minha parte, não foram esses fatos pelos quais deixei de me fazer ver. Minha primeira ideia foi fazer circular o livro gratuitamente e nada mais. Depois, perguntei-me se haveria ex-integrantes que o lessem e desejassem ampliar as denúncias. Contudo, as redes sociais, com seus alcances e interação, estavam menos desenvolvidas do que agora; por isso, não recebi mensagens, nem do México, nem de nenhuma parte e, como te comentarei, não encontrei utilidade em realizar acercamentos. Assim finalizei, porque havia cumprido meu objetivo.
... Y estábamos en la caverna
Saí da Nova Acrópole porque, em última instância, tive uma crise moral. Levava anos convencido de que minhas ações eram, como nos diziam, em benefício da humanidade, por meio do que a Acrópole denomina o serviço e outras seitas a seva. No entanto, quando presenciei os abusos que ocorriam tanto contra outros integrantes quanto contra mim, a consciência começou a despertar de maneira gradual. Passei de justificar a realidade, a negá-la e finalmente a aceitar sua veracidade.
Começou como uma sensação física de desagrado ante a ideia de me apresentar na sede e depois foi uma voz interior, insistente, que começou a questionar a natureza da Nova Acrópole. A informação captada aqui e ali se acumula no teu inconsciente e emerge como o que a Acrópole chama “a crise”. Eles estão conscientes de sua existência e a definem como um episódio de fraqueza gerado pelo egoísmo e pela perda de captación do integrante, em relação ao esforço que implica o serviço à humanidade, e tentam sufocá-la injetando sentimentos de culpa, vergonha e dando castigos morais ao integrante, pois sabem que a crise é, na realidade, um despertar da consciência.
É importante assinalar que a crise numa seita não é um evento único. No plural, considero as crises como resultado de acumulações na experiência do abuso. No singular, uma crise pode ser definidora. Todos pudemos observar que uma crise conduz a sair da Acrópole ou a afundar-se mais nela. As crises são, na verdade, produto do que a ciência chama dissonância cognitiva. As crises são uma dissonância que pressiona tua consciência.
Por geralmente, a crise se deve a um evento desencadeante. Dizem‑te algo, vês, vives algo, que libera o efeito das experiências negativas acumuladas.
No meu caso, o evento desencadeante foi uma reclamação que um jovem guarda de segurança me fez, em parte dolorosa e em parte serena. Mostrou‑me o sofrimento que lhe causavam minhas decisões como seu comando, as dúvidas que experimentava pela pressão a que o submetia, que era, por certo, menor à que eu me submetia e na qual me encontrava.
O rapaz estava em crise. Por isso, poderia tê‑lo silenciado, impor‑lhe guardas de castigo, exibí‑lo em público, como se faz, mas à medida que o escutava, suas palavras foram‑me causando uma profunda impressão. Algo dentro de mim forçou‑me a prestar atenção. Com suas palavras iam‑me aparecendo acontecimentos cuja interpretação passou de ser a sabida — que eram compromissos de discipulado, de superação do ego, de sacrifício necessário por um dever — a captá‑los como de natureza falsa e violenta. Violência em todos os âmbitos, que por anos eu havia ignorado, mas à qual me adaptara, sentindo‑a normal na nossa comunidade, e fez emergir na minha memória momentos e emoções que eu havia estado montando. Ouvia‑o, mas também me ouvia. E uma grande parte disso era eu a dizer‑me que estava abusando moralmente dos outros, começando por esse rapaz. Minha voz repetia‑me, com um tilintar incessante, inflexível, que o que esse guarda me dizia era, causando‑me um sentimento de sereno horror, a cruel e lacerante verdade.
Nunca soube o que o levou a dizer‑me aquilo, isto é, o que o levou a dizê‑lo a mim. Pôde ir com hachados, com o Chefe das Forças Vivas ou com o próprio Comando Nacional. Embora eu fosse seu canal hierárquico, justamente por ser a fonte de seu desconforto poderia tê‑me evitado. A despeito de que o tivessem gritado, castigado e, de passo, a mim por não contê‑lo, além de sua ingenuidade por crer que protestar servia de algo, quero pensar que me o disse, além de por rebeldia, porque acreditou que eu poderia ouvir e por isso, embora de sua vida pessoal nada soubesse, e depois que deixei de vê‑lo nada soube, considero‑o amigo e lhe dedico este testemunho.
Nesse momento respondi de maneira evasiva, o enviei de volta aos seus deveres e retirei‑me a um salão vazio, preso a uma série de emoções que me cruzavam sem poder contê‑las e a pensamentos em desordem. Senti‑me tocado naquilo que considerava minha identidade mais profunda. Senti‑me confrontado com a terrível verdade, sem capacidade de fugir dessa sensação, atravessado por um grito de reclamação, de acusação que vinha da minha mente: que, em vez de ser um guia, me havia convertido num instrumento de sofrimento e engano para aqueles que confiavam em mim.
Eu era um apaixonado defensor da militância, da devoção a um Mestre e da colaboração em uma causa nobre que buscava viver e sustentar não com palavras, mas com meus atos. No entanto, num instante, dei‑me conta de que, no meu desejo de ajudar, me havia tornado, sem perceber, parte de um sistema que abusava da confiança das pessoas e manipulava suas vidas de maneira contrária aos meus próprios princípios morais. Além disso, estava tomando consciência dos horrores históricos do nazifascismo que, junto com o sentido heroico, era parte da medula do que considerávamos nossa mística. Foi uma tempestade silenciosa que me pressionou as têmporas com o inflexível dedo da vergonha.
E o que me aconteceu, cheio dessa vergonha que me doía como uma punhalada, martelando‑me, foi que, naquele salão vazio onde eu dera aula de filosofia moral, de simbolismo e alcançara os voos de comentar que não veríamos o Mundo Novo, mas que esse mundo de beleza o mereciam as almas do amanhã, sentei‑me onde os integrantes costumavam sentar e cobri o rosto, e árdua e silenciosamente pus‑me a chorar com lágrimas ardentes. Haviam‑me espetado na cara que eu perdera de vista o que realmente significa ser uma pessoa compassiva e justa. E ainda agora que o recordo, volto a sentir essa vergonha, e sinto‑me grato por ela.
Suas palavras foram o momento desencadeante de uma crise que me levou a sair da Acrópole, também, como costuma ser, não de imediato. É difícil renunciar aos afetos. É difícil renunciar ao que tomaste como uma pauta sagrada em tua existência. A última vez que estive na Acrópole parei diante do fogo do chamado templo de Segurança. Frente à chama que continuamente ardia, lembrei quando me juntei à Acrópole. Eu procurava uma causa. Senti tê‑la encontrado na Nova Acrópole, como a oferecia. Lembrei quando me tornei elemento das Forças Vivas. A sensação de ação quando, antes da cerimônia do juramento, me indicaram que me colocasse a gravata negra no espaço do terceiro botão da camisa da mesma cor, com a banda vermelha ao braço. “Posição de ataque”, explicaram‑me, e senti‑me disposto a tudo.
E o que havia de base — a ideia de que os atos e sacrifícios eram transcendentais em benefício da humanidade — não era mais que um gigantesco e patético engano, porque a forma que adotava era o oposto disso e era imoral. O que mais me doía era a traição da Acrópole ao crer, mas eu a estava processando. Lembro‑me que, de pé diante da veladora, minha expressão era serena, e senti meu olhar concentrado e nela outra chama, esta, a de um primeiro vislumbre, uma certeza ainda vaga, de que a história não acabaria assim.
Cessei as lembranças, apreciei minha boa vontade e, ouvindo os sons do trabalho sem fim, inútil para o mundo, dos que estavam lá fora, pensei que pode haver sonhos celestes e despertares terrestres. Depois saí e não me despedi de ninguém, nem perguntei por ninguém no futuro. Dos que conheci, só de um tenho memória especial: um homem de ideais que mereciam uma melhor causa, dos que têm silêncios cheios de emoções e paisagens onde os heróis criam mundos. Os que podem existir exatamente onde não há a Nova Acrópole. Anos depois soube que se fora e fiquei muito feliz por ele, embora nunca lho diga.
Una ventana
Sei que alguns dos que me leem podem estar interessados em saber se meu testemunho os afeta, porque são responsáveis por abusos econômicos e sexuais. Contudo, meu enfoque não está neles. E não se me pode acusar de nada disso, porque nunca o cometi. Minha responsabilidade foi outra. É a de um tipo de integrante que busca um compromisso existencial. Minha responsabilidade foi falar de falsidades como se fossem verdades. O fato de as ter acreditado certas e de serem a tônica de alguns nunca me fez sentir melhor.
Havia um matiz. Desde o princípio reconheci, além da filosofia, o conteúdo esotérico de Blavatsky e do nazifascismo, que, reitero, como disse no livro, também me atraiu. Pensamento característico de certos jovens que se rebelam contra os sistemas tradicionais e que consideram que a democracia pode ser uma forma de ditadura; aos 20 anos acreditava que o nazismo era uma via válida para contribuir a um mundo melhor e que falhou porque o traíram. Identifiquei‑o desde as primeiras aulas e vi‑o diante dos meus olhos quando entrei nas Forças Vivas. Seu ambiente de religiosidade pagã satisfez em mim uma necessidade de mística, embora antes já tivesse feito coisas semelhantes. A estética, mas sobretudo a tônica e os conceitos dos totalitarismos, foi algo que captei de imediato. Por isso entendo que o captou Westland New Post, grupo filonazi que tomou aulas na Acrópole e sobre o qual te contarei mais adiante.
Trazia alguns pensamentos que não chocavam com o que percebia da Acrópole, mas, ao contrário, se alinhavam. Eu acreditava que uma causa nobre não podia avançar só com pessoas amáveis, mas precisava de um exército para impulsioná‑la. Dizia‑me que um problema era que os bons rezam, enquanto os maus os apunhalam. Precisavam‑se de bons com faca. Essa perspectiva não era apenas minha; usando outras palavras, era o talante das Forças Vivas, talvez não das Brigadas Femininas nesse estilo de fanatismo, onde, exceto algumas, as demais viviam o que consideravam o compromisso — formas que aprendias em publicações e que inferias pela própria existência dos círculos internos —, embora a maioria não visse seu trasfundo e muitos pudessem ter estado igualmente a atender, mal, um bar. Quando tive a crise, que foi definidora, fazia tempo que entendia que essa forma de agir era imoral e o perigoso de encorajá‑la quando se lhe acrescenta um componente esotérico ou pseudofilosófico.
Quando chegou a hora de escrever O Grande Engano, soube que devia fazer essas confissões para que contribuíssem a fazer entender o contexto. Agora aprofundei‑me para o mesmo. Para chegar à luz, é preciso mostrar algumas sombras.
El después
Pelo que vivi, além do presenciado, neste testemunho acrescento elementos que podem ser‑te úteis.
Em algum ponto do caminho, ainda que te mova o impulso de ajudar a que se conheça o problema, a seita deve desaparecer da tua vida e deves dedicar‑te aos teus projetos. Construindo tua vida deslisas fora dela as formas de pensamento e ação que a seita te impôs. És mais tu do que nunca, uma vez que te libertas.
Tenha presente que a seita sempre quererá desmerecer‑te dizendo que estás “enraivecido, ressentido”. Claro que estás zangado. Os sujeitos te enganaram. Mas eles tentam reverter o foco da responsabilidade para se ocultarem, atribuindo‑‑ta a ti. Ou culpam‑te do problema que eles causaram. Que um grupo cometa um erro e acuse os outros de o ter cometido é um recurso tomado dos critérios de Goebbels.
Quando estás saindo da influência da seita, convido‑te a evitar certos erros ao gerir a situação.
• Não analisar a experiência e pretender que podes seguir sem mais. Um dos erros mais significativos é não refletir sobre o que propiciou que fosses captado por uma seita. Isso pode levar a manter os padrões de pensamento que te colocaram em risco. Isso poderia resultar em que vás “saltando de seita em seita”. É vital analisar criticamente tua experiência e assumir tuas responsabilidades. Sugiro evitar o “me ensinaram o que não se deve fazer e os agradeço”.
• Comportar‑te com idênticas relações de poder que quando estavas dentro. Ao sair da seita, é natural buscar apoio entre os que deixaram a organização, porque uma primeira sensação é que estás totalmente só. Contudo, se tentas manter as mesmas dinâmicas de influência que tinhas na seita, estás perpetuando o controle e a submissão, sobretudo se vieste de uma seita paramilitar como a Nova Acrópole. Busca ter relações de igualdade e respeito mútuo.
• Não criar tua própria dinâmica e projetos. Uma vez fora da seita, é importante não estender a mentalidade ou o ritmo de vida que tinhas. Deves esforçar‑te por construir tua própria vida, criar teus próprios projetos e valores.
Tras bambalinas de El Gran Engaño
A origem do livro é um blog onde denunciei a fraude acadêmica da então Comando Nacional, Lidia Pérez López, que, sem ter os estudos, se diz Dra. em psicologia summa cum laude, perante meios de comunicação e sociedade, porque essa é sua personalidade, mas também porque a Nova Acrópole ensina a falsificar na prática, para conseguir seus propósitos.
Sendo Pérez López a máxima autoridade da seita, e seu comportamento habitual entre os comandos da Acrópole, considerei que a denúncia dava um panorama de suas hierarquias, mas também de como os adeptos não se inteiram da verdade ou, se a sabem, a justificam. Para que não se pense que são somente pessoas com problemas as enganadas por seitas, fica claro que todos podem ser ludibriados.
Realizei a investigação em sítios acadêmicos oficiais, inclusive Harvard e a Sorbonne, onde Pérez López afirmava ter dado conferências, e dei provas de sua usurpação de profissão. Depois, um bom rapaz da Acrópole — achei sua foto — enviou‑me o endereço de um sítio que dizia sua mensagem contra “minhas difamações” ao seu Comando Nacional. Visitei a web com curiosidade, mas, óbvio, nada havia. Se foi um truque para hackear‑me, levaram um vírus. Também recebi convite de Esmeralda Osuna, então dirigente da Acrópole, para conversar, disse, mas para mim era perda de tempo porque falar com uma dogmática é igual a falar ao vento.
No período anterior ao blog, duas Brigadas Femininas denunciaram, por iniciativa própria e de boa vontade, com Delia Steinberg, os abusos do Comando Nacional do México, Lidia Pérez. Em troca, uma delas recebeu ameaças de advogados, ainda mais ao relacioná‑las posteriormente ao livro. O convite que se fez a outra delas, também por parte de Osuna Lafarga, foi no marco onde, sem ter provas, a apontou de participar com Juliano e a conversa era — cito a frase usada pela dirigente — “para ajudá‑la a sair de seu equívoco”. Essas Forças Vivas reafirmaram sua decisão e saíram da Acrópole.
Pus‑me em contato com autoridades judiciais e policiais para obter informação sobre o respaldo a quem denuncia atividades relacionadas com seitas. A experiência caracterizou‑se por ser um processo em que me remetiam de uma instância a outra. Um dos agentes praticamente me submeteu a um interrogatório em busca de contradições, o que me fez sentir como se fosse o suspeito. Outro, com sorriso cínico, perguntou‑me sobre minhas possíveis motivações de benefício econômico. Outra autoridade expressou seu temor em relação às seitas, enquanto outra me aconselhou a não me envolver, argumentando que sua experiência indicava que poderia haver risco de violência, sem possibilidade de apoio para mim. Comprovei a falta de instrumentos para atuar nessas situações. Decidi não procurar esses apoios.
Posteriormente descobri que as ONGs sim apoiam: Red de Apoyo Inc., RedUNE, RIES. Mas, então, a única pessoa que podia narrar o que sabia era eu mesmo, não sendo o que fui, mas o que agora era.
La distribución
Uma vez que tive a obra, localizei os sítios da seita no México, além de recuperar e‑mails de ex‑integrantes com os quais não falava há muito tempo, e numa tarde fiz envios massivos. Tenho a agradável suspeita de que houve reenvios. Era preciso informar.
O Grande Engano traça uma conexão direta entre a Acrópole e os princípios primordiais de seu fundador, adentrando‑se na controversa questão do filonazismo na seita. O livro argumenta que o filonazismo, embora nem sempre seja evidente, não pode ser ignorado e, em alguns casos, manifesta‑se de maneira explícita.
Para uma pessoa conhecedora, ouvir “camisas pardas” a alertaria de imediato. Por isso, foi importante para o livro colocar os emblemas cujas associações de conceito percebi então, assim como convidar a refletir que tantas coincidências são significativas, não azarosas, e traçam sua identidade real. Entender que a atual diminuição das manifestações não significa, por si só, que a era de Livraga foi apenas uma absurda mistura de radicalismos e incenso. O criador e sua criação não se podem separar.
Quando repartíamos folhetos de propaganda, às vezes sem nos darmos conta entregávamo‑los a estrangeiros. Mais de uma vez, oferecemos a espanhóis que mostravam cara de desagrado e diziam “ah, não, disto sabemos na Espanha”. Eles conheciam algo do que vivíamos, mas que praticamente ninguém do grupo sabia identificar. Existia um desfase na informação. E isto também ocorre entre ex‑integrantes. Os desfases de experiências e percepções acentuar‑se‑ão e nisso aposta a Nova Acrópole.
Reacción de Nueva Acrópolis
Ocorreu o que sabia e que me havia mentalizado: as ameaças, porque quem se lançava por esses tempos a algo assim entendia que chegariam as intimidações, sem contar com muito apoio contra as mesmas. A seita já usava advogados, embora fosse menos hipócrita, e enviava advertências através de suas dirigentes, assim como ameaças por intermédio.
Não relatarei certos detalhes porque convém à segurança do caso. Pode‑se dizer que a Nova Acrópole, nos casos da dissidência que começa a mover‑se, além de desatar uma caça interna para saber se têm infiltrados, também convoca os comandos e arma uma lista de suspeitos com base em seu comportamento quando foram integrantes e nos termos em que saíram. A reação imediata é a do tiro de escopeta. Atiram a tudo para ver quem se mexe. Além disso, guardam teus dados de localização. Quando teus ex‑companheiros te procuram para cumprimentar‑te depois de saíres da Acrópole, o que fazem com isso é verificar que têm tua informação atualizada. O café a que te convidam é para saber o que fazes e pensas. Falam‑te muito bem e, ao regressar, passam um relatório. Acreditam que vale trair tua amizade, por se tratar do Ideal.
Soube por e‑mail de pressões e ameaças, veladas ou não, a alguns ex‑integrantes. Uma das mensagens vinha de uma ex‑Brigada, que me contou ter recebido uma chamada telefónica, à qual respondeu afirmando que não se deixaria intimidar. Pela linha, uma voz sem sotaque, não identificável como da Acrópole México, disse‑lhe que “Juliano devia retirar o livro ou haveria represálias” contra ele e contra quem recebeu a chamada, e que “Juliano devia pedir desculpas à Nova Acrópole e à Mestra Lidia Pérez López”.
À semana e meia da distribuição do livro houve também a visita presencial de um membro do Corpo de Segurança, acompanhado por seu pai, a uma das mulheres que escreveram ao Comando Mundial Delia Steinberg. A intimidação manifestou‑se através da advertência de que a Acrópole recorreria a advogados internacionais para processar a mulher, pelo livro de Juliano. O sujeito disse‑lhe que o pool de advogados iria atrás dela.
O mais grave é que o ameaçador era o marido dessa mulher.
A Acrópole e seus comandos enviaram outros para a primeira linha, pondo‑os em perigo, sem importar‑lhes as possíveis consequências. No entanto, houve outras respostas. Descobri, às duas semanas, no YouTube, que um dos afetados realizou uma coletiva de imprensa para denunciar as ameaças e dar a conhecer a face sectária da Acrópole. Também soube de tentativas de hackeamento a perfis do Facebook e do roubo de uma conta de correio.
No final, diante desse nível de confronto, tomei medidas para que, se exercessem represálias contra quem fosse, muitos integrantes da Acrópole enfrentassem consequências penais. Essas medidas continuam em vigor.
As ameaças cessaram às três semanas, entendo que por terem baixado o livro, mas também porque a Acrópole recebeu advertências de ações por via legal e policial.
E sucedeu algo que nem eu antecipei. Com seu ataque, a seita promoveu a obra. Dois dias após a retirada, leitores desconhecidos por mim subiram O Grande Engano de novo a vários sítios web e a partir daí multiplicou‑se a difusão.
El reducto más profundo
Não me retratei e não o faço agora. Não o fiz porque, embora não seja agradável que te ameacem, estava no meu cálculo que aconteceria e sentia‑me moralmente preparado. Jamais pediria desculpas a quem danificou de inúmeras formas outros seres humanos, pois o fato irrefutável é que a Nova Acrópole é uma seita, um elemento de perversão social que rompe tecidos familiares e comunitários, que extrai, usa e danifica, em nome da filosofia, da espiritualidade e do voluntariado.
Después del libro
Decidi fazer aportes. Traduzi e divulguei materiais sobre a Nova Acrópole, compartilhei informação sobre investigações e sobre o WikiLeaks, e continuei ampliando o panorama internacional do problema.
Destacou‑se que a polícia belga investigou a Acrópole por permitir que um grupo filonazi chamado Westland New Post utilizasse suas instalações para se reunir. Um elemento desse grupo declarou que, para ser admitidos, deviam fazer um curso de seis meses na Nova Acrópole, provavelmente o Probacionismo, e descreveu a organização como uma “escola de filosofia de extrema direita”.
La unión necesaria
Vendo a evolução, dou‑me conta de que existe algo assim como uma “velha escola” da seita. A informação, de acordo com os cenários mutantes a que a Acrópole se adapta, deve ser mantida, trocada e analisada, ou, no final, perpetua‑se o que se desconhece que existe.
Como disse, encontrei o blog onde lês este testemunho e convido‑te a ler todos os outros. É um trabalho que merece maior projeção, porque não se trata de “destruir” uma seita; a seita não é o importante, mas as pessoas que podem ser danificadas.
El “yo no vi eso”
Ouvi, por vezes, a resposta a algo grave que se viveu formulada como “eu não vi isso”, e considero importantíssimo comentá‑la.
Cada vez que dizes, por qualquer motivo que outro conte, “eu não vi isso”, estás a dizer que não o viveste ou que te surpreende, mas se reages assim para desautorizar a veracidade de um testemunho, é provável que continues a ver o mundo desde a perspectiva da seita. Quando duvidas ou decretas que não é verdade com “eu não vi isso”, invalidas o testemunho de quem te está dizendo o que viu e viveu, contribuindo para que a memória coletiva se perca. E com esse esquecimento apaga‑se também a sua responsabilidade.
Llegó el tiempo de ser felices
As celebrações na Nova Acrópole México pela retirada do livro deram‑lhes um sabor de vitória que durou pouco mais de um ano.
As premissas do livro marcavam que, pelas relações de poder e de ambição, provocaria tarde ou cedo que a gente se fosse em massa. Acima de tudo apontavam que Lidia Pérez acabaria tendo um problema com a seita.
Nos altos níveis da Acrópole internacional não viam com agrado Lidia Pérez, mas mantiveram‑na porque ocupava um lugar alto na pirâmide hierárquica. Essa crença permitiu que uma usurpadora lhes roubasse sua estrutura.
Apenas dois anos após o aparecimento de O Grande Engano, Lidia Pérez, em companhia de Esmeralda Osuna, comunicou‑se com Delia Steinberg para dizer que o México se separava da Nova Acrópole.
Lidia Pérez disse depois aos integrantes que a Acrópole havia perdido seu caminho e que “já não eram felizes na Nova Acrópole”, convidando‑os a segui‑la. Depois, sede por sede, levou cada membro perante um júri onde lhe faziam declarar se ficava na Nova Acrópole ou se ia para a nova agrupação. Como havia colocado comandos fiéis a ela e não à seita, 90% dos integrantes abandonou a Nova Acrópole. Em seguida ordenou retirar os letreiros dos locais e colocar os novos, já preparados, com o nome Inspira.
De fato, o novo grupo não é um ente à parte. Inspira é uma facção da Nova Acrópole.
No México, a realidade é que a Nova Acrópole mal sobreviveu, porque da noite para o dia seu lugar foi ocupado pela Inspira, que ficou com os locais, a biblioteca e provavelmente com os estandartes das Forças Vivas.
No tan rápido
Este outro ponto é revelador da Nova Acrópole em seu conjunto. Lidia Pérez López justificou sua separação da Acrópole argumentando que já não cumpria seu propósito e que seus integrantes já não encontravam a felicidade nela. Essa afirmação é impactante, dado que durante anos defendera a Nova Acrópole apresentando‑a como uma instituição humanista e filosófica que oferecia formação integral e uma visão transcendental da vida.
Os que sustentaram a Acrópole até a exaustão e depois a denegriram só o fizeram porque ela lho disse. O ensino tão repetido de guardar o compromisso para com o Ideal e não para com a pessoa convenientemente deixaram de lado. A falta de coerência foi o sinal de que estavam rachados por dentro.
Os que optaram por permanecer na Nova Acrópole também não mostraram autocrítica quanto ao que os levou a essa situação. Foram incapazes de questionar sua lideresa, de avaliar suas ações e de retificar suas atitudes.
Reflexión
Na Nova Acrópole não há honra, não há respeito, não há filosofia, não há humanidade, não há amor do que tanto falam. No final tiram‑se as máscaras e revelam que unicamente se trata de sua ansiedade por dinheiro e poder.
A Nova Acrópole incapacita para reagir. Existe o fenômeno, por um lado, do cinismo em quem usurpa, e por outro, do doutrinamento em quem se vai ou fica. O doutrinamento, ou processo de controle de pensamentos, emoções e comportamentos, trabalhado ao longo do tempo, faz com que, pela lógica da Nova Acrópole, seus seguidores obedeçam a quem tiver o bastão.
Tu não és uma águia acropolista, nem um Homem Novo. Tu, para a Nova Acrópole, não significas nada. A Nova Acrópole não deve significar nada para ti. Se te convidam, não entres.
Conclusión
Doze anos depois de ter compartilhado O Grande Engano, constato que o alerta sobre as seitas deve continuar a ser feito. As seitas perviverão, mas também pervivem aqueles que geração após geração dão seu testemunho.
A história da Nova Acrópole serve de exemplo chocante de como as seitas podem manipular e prejudicar, inclusive a si mesmas, porque carecem de valores. Também exemplifica como a ausência de reflexão pode obstar a capacidade de reconhecer problemas. Portanto, é fundamental estar alerta aos sinais de uma seita. Não renuncies ao pensamento crítico e à solidariedade.
Faz tua vida, vive teus projetos, não deves nada a eles. Há um caminho para ti, para o qual não precisas de Mestres que te digam o que deves pensar.
Existe um Grande Engano? Sim, mas há algo melhor. É a hora da Grande Verdade.
Juliano, setembro de 2023