Testemunho de Nathan. França
Chamo-me Nathan MOREL, frequentei a Nova Acrópole na França, em Marselha, de 2011 a 2019.
Em consequência da minha experiência passada como membro ativo do movimento, e das polémicas em torno das suas actividades, pareceu-me necessário participar na restauração da verdade sobre ele, e apoiar os testemunhos dos ex-membros da Nova Acrópole disponíveis na internet.
Conheci a Nova Acrópole por boca a boca. Naquela altura estava interessado em esoterismo e espiritualidade, simpatizava com os valores humanistas e universalistas da sua carta, e com os seus discursos de apresentação como associação cultural, que promove a filosofia e o envolvimento cívico. Esses valores acompanham-me ainda hoje. Espero explicar em que medida a Nova Acrópole traiu essa promessa.
Inscrevi-me num ciclo de cursos de filosofias do Oriente e do Ocidente. Fui acolhido calorosamente e descobri uma comunidade simpática, levando com zelo todo o tipo de actividades anexas, culturais e de voluntariado, que tiveram grande importância no processo da minha adesão.
Com o distanciamento, esse primeiro ciclo de cursos, qualificado de « étude comparée des philosophies d’orient et d’occident », revela-se um agregado de ilustrações filosóficas cuidadosamente seleccionadas em favor da ideologia espiritualista e totalitária do movimento. Todo o ensino ministrado mereceria uma crítica exaustiva, mas esse não é o meu propósito aqui.
Rapidamente, após esse primeiro ciclo de cursos, propuseram-me tornar-me membro da organização e, após uma entrevista individual e um surpreendente ritual de passagem, obtive esse estatuto.
Como membro, passei a dever pagar uma contribuição anual de 660 euros e abordámos novos temas. Esse segundo ciclo revelou plenamente a adesão da Nova Acrópole à doutrina esotérica da ocultista e médium Helena Petrovna Blavatski, revista pelo fundador Jorge Angel Livraga.
Na altura, eu não tinha o método para perceber que as crenças duvidosas que me eram ensinadas, para além de serem muito provavelmente falsas, seriam tantos argumentos falaciosos para justificar a radicalidade crescente do meu compromisso.
Ninguém acredita nem se envolve na Nova Acrópole sob coacção. O processo de adesão dá-se por um lado por uma exposição progressiva às ideias e às práticas mágico-espirituais, jogando com os efeitos de contaminação pelo colectivo, e com o efeito de revelação à medida que se é iniciado e se sobe na hierarquia.
Por outro lado, a Nova Acrópole propõe oportunidades aos recém-chegados. Há um verdadeiro benefício quando se assume responsabilidades e poder. O facto de ser levado a falar em público, de dirigir equipas de voluntários, de ultrapassar os próprios medos em representações artísticas, ao mesmo tempo que se revela a intimidade nos debriefings colectivos, tem por consequência desenvolver a confiança em si e reforçar o sentimento de reconhecimento social e de pertença.
Por todas estas razões, a inclinação da minha servidão voluntária tornou-se cada vez mais marcada, acentuada por uma relação mestre-discípulo que se instalou pouco a pouco com o director do centro de Marselha.
Essa relação, inicialmente benevolente, revelou-se com o tempo muito autoritária, misturando subtilmente o medo e a fascinação numa mistura de frios e quentes desestabilizadores e cuja exposição prolongada acabaria por provocar a perda da minha autonomia psicológica, intelectual e económica.
Económica porque, de facto, pouco depois de integrar as Forças Vivas, ele propôs-me empregar-me num contrato de futuro na associação « les fruits de la terre » para actividades ecológicas. Previamente, desaconselhou-me a retomar os estudos porque considerava isso incompatível com o meu compromisso e, cito: « isso poderia lavar-me o cérebro ».
Depois de alguns meses de emprego, pedi a rescisão do contrato e, em resposta, ele exigiu-me o dinheiro que tinha investido em mim. Exigiu que eu lhe apresentasse nos meus balanços espirituais uma reflexão sobre a suposta violência que eu teria cometido no meu processo de ruptura.
L’entrée dans les Forces Vives
Após um ano de participação na escola, o director do centro propôs-me tornar-me Força Viva e foi depois de algumas entrevistas individuais que escrevi uma carta de postulação para essa escola interna.
Para me tornar Força Viva, recebi uma aula semanal individual durante vários meses, cujo conteúdo, pontuado pela leitura de textos chamados « bastiões », escritos pelo fundador da NA, devia ter-me alertado pelo número das suas afirmações chocantes ou absurdas. Pedia-se-me que restituisse as ideias desses bastiões sem emitir críticas, a crítica sendo considerada uma armadilha da mente. Mais uma vez, devia ter vislumbrado o processo em que me tinha envolvido, ou seja, tornar-me pouco a pouco numa casca vazia que restitui discursos estereotipados, colocando um delator dentro de mim para descobrir todo o pensamento crítico em relação ao movimento.
Passei as quatro provas « terre, eau, air, feu » para me tornar Força Viva. Essas provas, cuidadosamente ritualizadas, provocaram em algumas ocasiões em mim profundos estados de consciência alterada. Esses estados, à sua maneira, contribuíram para enviesar o meu julgamento relativamente ao que eu considerava espiritualidade e ao que eu considerava um compromisso voluntário e esclarecido.
Durante a prova final de admissão nas FV, descubro o que é na prática essa « escola interna de aplicação dos ensinamentos ».
Descubro assim a organização paramilitar das Forças Vivas.
Os uniformes: camisa preta para os cavaleiros da segurança, e camisa castanha para os cavaleiros do trabalho.
As partes cerimoniais, com sentido de ordem e ordens executivas, marcha ao passo e em cadência, cantos marciais místicos glorificando o sofrimento e o sacrifício à causa, o belicismo e o espírito de conquista. Assim as nossas vozes proclamavam palavras como « nos estandartes hão-de flutuar sobre o mundo », « somos os herdeiros de Roma », etc.
Praticávamos durante as cerimónias a saudação dita « romana », braço e palma estendidos, tristemente conhecida e aliás ilegal na França, na direcção de estandartes com uma simbologia estranhamente semelhante aos grandes totalitarismos de extrema-direita.
No âmbito das Forças Vivas, praticávamos também a devoção aos deuses antigos como Ares ou Ptah, recitando em cada ritual as respectivas orações, um joelho no chão e o braço levantado em direcção ao estandarte.
Nos hinos, Deus é sistematicamente mencionado, bem como no código de honra cujo primeiro ponto é: « crer em Deus ». Tudo isto já não tem nada a ver com as pretensões culturais, de filosofia apolítica e areligiosa que a montra da Nova Acrópole apresenta ao público.
Na minha cerimónia de intronização no templo, fui obrigado a prestar o seguinte juramento:
« Perante a águia solar, o fogo sagrado, o machado de Ares Dionysos, na presença da minha alma imortal e daquela dos meus camaradas em busca de sabedoria. Eu, conhecido hoje pelo nome de Nathan MOREL, comprometo-me a servir com lealdade e eficácia como cavaleiro do corpo de segurança da OINAF.
Se eu não o fizer assim, que os Deuses, o Karma e os meus mestres o exijam. »
Foi assim que fui intronizado cavaleiro do corpo de segurança da Nova Acrópole França.
Chegara ao ponto culminante de um processo de embrigadamento que abria a porta a um modo de vida inteiramente novo, cuja pedra angular seria a obediência e a devoção.
Integrara uma ordem piramidal rígida. Já não tinha realmente escolha sobre a grande maioria das minhas actividades, a minha agenda, o que podia dizer ou não dentro do movimento. A Nova Acrópole, por intermédio do meu mestre, tinha-se apoderado da minha vida. Pensava ter-me comprometido voluntariamente, nunca imaginei que o meu consentimento pudesse ser induzido.
A vida de Força Viva revelou-se extremamente stressante. As minhas responsabilidades acumulavam-se de forma desproporcionada, o esforço era sustentado e ininterrupto. Sofria regularmente de exaustão intensa, exactamente da mesma maneira que os outros FV com quem convivía, porque todos nós estávamos impregnados de uma cultura do sacrifício, do sofrimento como fonte de consciência, do trabalho como purificação e do compromisso como prova de força moral. Tornou-se então impossível dizer não, expondo-me assim à dolorosa desaprovação do meu mestre.
Como mencionei no início do meu testemunho, a relação que tinha com o meu mestre mudou. Os bons conselhos e as propostas dos primórdios tornaram-se ordens implícitas, às vezes explícitas, sugeridas por fórmulas-chave tais como « para um discípulo, os conselhos do mestre são sempre ordens » ou « a acrópole não toma um pouco, não toma muito, ela toma tudo ».
Durante vários anos, a maneira sorrateira e autoritária de ser do meu mestre, as suas iras e os seus lembretes de obediência, misturados com atitudes afectuosas, falsamente amigáveis, críticas acerbas e insinuações desvalorizantes, intoxicaram profundamente e de forma duradoura a minha vida psíquica.
Durante a minha vida como FV, fui também formador para os estudantes no âmbito dos cursos, mas igualmente numa subestrutura para jovens chamada Perseus e instrutor para os postulantes às Forças Vivas.
A minha formação, para além da aprendizagem da doutrina, consistiu principalmente em aprender a manejar diferentes formas de linguagem, de modo a transmitir ideias ou comportamentos conforme aquilo que pensávamos que a pessoa era capaz de ouvir.
Eu sabia, e todos nós sabíamos, que muitos dos « ensinamentos » e actos internos não podiam ser apresentados tal como eram realmente. Era necessário usar modos de linguagem ditos do 1.º, 2.º e 3.º círculo conforme as circunstâncias.
Um pouco como uma matrioska, a organização estrutura-se em três círculos concêntricos, isolados uns dos outros, filtrando as boas recrutas das más, instilando gota a gota os pontos importantes do sistema de crenças, permitindo um certo controlo sobre os indivíduos e as informações.
Compreendi que o objectivo político da Nova Acrópole se aproxima tristemente dos grandes idealismos do século XX. É totalitária pelo seu culto do líder, do colectivo e do super-homem, pelo seu projecto de construir um império « filosófico » reunindo os poderes políticos e religiosos num rei-sacerdote. É obscurantista pela sua doutrina semelhante a um ocultismo new age imbuído de folclore iniciático, oposta à difusão de conhecimentos que contradiriam a sua visão do mundo.
E, finalmente, a Nova Acrópole promove uma forma muito particular de racismo espiritual pela sua crença no evolucionismo teosófico, definindo « linhagens espirituais » e pretendendo que cada raça é uma « experiência de consciência » que substitui a outra. A Nova Acrópole define-se historicamente como sendo o germe da 6.ª raça, e o ninho do futuro avatar divino, que os governará a todos.
Não poderia ser exaustivo sobre todos os pontos adulterados do seu paradigma de crenças. Parece-me importante precisar também as suas apetências por pseudociências e pseudomedicinas. Creio ter sido testemunha de vários atrasos nos cuidados para doenças graves, ou de ausência de cuidados para doenças crónicas ou psiquiátricas.
Les pratiques trompeuses concernant l’image du mouvement
Fui actor e testemunha de astroturfing, técnica consistindo na simulação de comentários espontâneos na internet para fabricar uma opinião positiva do movimento.
Fomos convidados a publicar comentários como se não fôssemos membros, mas muito satisfeitos com tal ou tal actividade. Havia também campanhas de cliques, para fazer subir nos motores de busca os resultados favoráveis à Nova Acrópole, a criação sistemática de associações satélite em torno dos centros, os jogos de papéis que fazíamos em estágio para desarmar as acusações de deriva sectária, e por fim a infiltração da Wikipédia para tentar exercer influência em determinadas páginas.
Mon départ
Para concluir, desejo agora descrever as circunstâncias da minha saída.
Verão de 2017, a minha companheira, ela própria Força Viva e em formação para se tornar directora de centro, sofreu um grave burnout e desenvolveu uma depressão ansiosa de rara violência. Ela deixou o movimento e rompeu os nossos laços de um dia para o outro, levando consigo várias pessoas com quem eu me tinha ligado por amizade.
Recordo-me particularmente das palavras do director: « cette conne a quitté l’acropole comme elle quitte un mec ».
Na sequência disso, deslizei secretamente para uma depressão suicida, como desligado de mim próprio. Faço as coisas automaticamente, mas assumo cada vez menos as minhas responsabilidades a sério, cansado dos comportamentos cegos e estereotipados dos meus camaradas, dos meus superiores e de mim próprio.
Verão de 2018, num estado de exaustão avançada, desiludido e sem fé, embora sabendo perfeitamente simular o perfeito « acropolista » para não me atrair problemas, conheci uma nova mulher, Força Viva recente habitando noutra cidade.
O ponto de rutura foi atingido quando, em conjunto, soube que os seus superiores hierárquicos a desencorajavam de se envolver romanticamente comigo, enquanto o meu próprio superior me sugeria manipulá-la através do seu filho para « a pôr no meu bolso » e trazê-la para Marselha.
Ao mesmo tempo, descobri videastas na internet a desenvolver temas sobre pensamento crítico, método científico, epistemologia, educação para os media e as derivações sectárias. Eles tiveram um grande papel no meu processo de desvinculação.
Fevereiro de 2019, fiz o meu pedido de saída das Forças Vivas. Precisei ainda de vários meses para me desapegar progressivamente do movimento, saindo pouco a pouco da confusão mental e afectiva que a Nova Acrópole e os seus dirigentes tinham criado em mim.
Setembro de 2019, declaro ao meu ex-mestre que não voltarei. Seguiu-se um e-mail sibilar pedindo-me que destruísse todos os documentos internos e devolvesse os elementos rituais que eu tinha em minha posse, prova adicional do perfeito conhecimento do que são e do que escondem.
Passaram-se três anos desde então até escrever estas linhas, e desejo testemunhar àqueles que podem ouvir que precisamos uns dos outros, precisamos de um sentido para as nossas vidas, mas não a qualquer preço.
Nathan, janeiro de 2023