Este site é um recurso de informação independente e não é o site oficial da «Nova Acrópole».
A designação «Nova Acrópole» é utilizada apenas com o objetivo de identificação do objeto de crítica/análise.

Home

Testemunho de Pedro. Equador

ec2021,Idioma original: EspanholLer no idioma original
Tradução automáticatestemunhos contra a Nova Acrópole

Fonte: nuevaacropolissecta.blogspot.com

Testemunho de Pedro. Equador

(Esteve na Nova Acrópole 5 anos. Entrou aos 16 anos e pertenceu ao Corpo de Segurança.)

Conheci a Nova Acrópole em outubro ou novembro do ano 1996 por sugestão de um professor do ensino secundário que nos recomendou as conferências que se realizavam na sede da localidade onde moro. Pareceram-me interessantes e decidi ingressar no curso que chamam probacionismo. Naquela época o probacionismo durava aproximadamente 3 meses, embora por vários motivos que não vêm ao caso esse tempo se alongou até maio de 1997. Por ser ainda um adolescente colocaram‑me num curso que tinha mais rapazes da minha idade. Entusiasmado com as aulas fiquei como membro e quase 2 anos depois me "convidaram" a ser Força Viva (requisito prévio e necessário para ser instrutor).

Aos Janos (jovens acropolistas) apressaram‑nos a tornar‑nos instrutores e Forças Vivas porque naquele momento aconteceu uma espécie de cisma e "desbandada de membros" e exigiam substituir os que se afastaram.

Tive que passar por uma "preparação" de cerca de um ano, e ao final te aplicam 4 provas. Primeiro caminhei descalço desde a sede até um rio (aprox. 2 km) por volta das 20h. Tive que cruzar pendurando‑me numa ponte segurando‑me do corrimão por fora uma vez com as duas mãos e outra vez segurando‑me com uma mão. Tive que caminhar um trecho dentro do rio que estava um pouco crescido. Por fim, diante do símbolo do Corpo de Segurança acenderam um fogo num pebetero e eu devia tirar um símbolo que atiraram dentro do fogo. Segundo soube depois, complicaram‑me porque, comparadas com as "provas" dos outros que entraram antes de mim, calharam‑me muito mais duras.

Enfim, fiz o probacionismo das Forças Vivas e entrei no tão "ansiado" círculo interno. Pertencei ao Corpo de Segurança (CS) ou "camisas negras", como se fazem chamar. As reuniões iniciavam‑se sempre com a famosa saudação nazi e pronunciando "ave". O uniforme dos CS era todo preto: camisa, calça e sapatos, cabelo curto com estilo de "varão" e a braçadeira vermelha com o cartucho egípcio contendo o raio e o S. Por sua vez, as Brigadas Masculinas ou de Trabalho (BM) usavam uniformes na cor parda (caqui). Algo que sempre te repetiam internamente é que Hitler apenas falhou porque estava assessorado por magos negros, mas que as ideias desse tipo são muito boas.

Incentiva‑se e vê‑se com bons olhos que aprendas a usar armas de todo tipo. Pratiquei um pouco de artes marciais (uma disciplina inventada por eles chamada Nei Kung Do) e costumavam repetir que um faixa preta e um Força Viva não devem ter medo de matar.

Recordo a anedota de quando alguns membros da escola de artes marciais Bodhidharma iam prestar o exame para faixa preta. Por não haver muitos estudantes obrigaram os CS a ir como adversários para as provas. Um dos examinados acabou com a mandíbula fracturada porque os combates eram com tudo, à bruto, sem restrições. Pela dor, pediu autorização para ir à casa de banho e obrigaram‑no a ficar, pois se não o fizesse não passava no exame.

Trabajo continuo y desgaste físico, emocional y económico

Ingressei diretamente a formar parte da "secretaria de trabalho", um eufemismo para chamar a mão de obra grátis para as tarefas de manutenção e limpeza da sede. Vários meses depois passei a ser "secretário de propaganda" com 3 membros a meu cargo. Encarrregávamo‑nos de repartir boletins de imprensa, colar cartazes e entregar convites. Paralelamente devia dar aulas, ditar mensalmente uma conferência e fazer as benditas guardas (que consistem basicamente em estar na sede uma noite inteira sem dormir).

A minha rotina começava às 9 da manhã e terminava à 1 da manhã do dia seguinte: tinha de fazer tarefas de receção, depois de propaganda, almoçava (por volta das 13h) e saía para a sede para fazer limpeza e preparar aulas, ou às vezes a sala de conferências; se me calhava dar a conferência eu a dava (18h) e imediatamente tinha de dar aulas 3 horas, depois tinha reunião da secretaria de propaganda com os membros e entre algo para comer, um reforço ideológico (lavagem de cérebro) e tarefas relacionadas a repartir cartazes, convites, etc., chegava ao dia seguinte a minha casa.

Passado algum tempo como Força Viva e instrutor surgiu a oportunidade de dar conferências numa cidade próxima. Pelo fervor de me sentir útil e ajudar o "ideal" disse que me incumbiria até que existisse um acropolista que pudesse dedicar‑se 100% a essa cidade (grave erro).

Nas reuniões semanais de "conselho" martelavam‑te com que deves trazer membros, algo como se se tratasse de evangelizar selvagens. Sempre te martelam com a frase "dímelo con miembros", assim que se tens alguma opinião e não trouxeste membros, não te tomam em conta.

Manipulavam‑te para que sempre priorizasses estar para o ideal em detrimento da tua vida pessoal e familiar. Insistem muito em que se preferes ir a uma festa e não a aulas então és um "fraco" e procedem a contar‑te anedotas (impossíveis de comprovar) sobre acropolistas que caminharam 60 km a noite toda para chegar às suas aulas porque não apanharam o autocarro a tempo, e que depois de terem caminhado a noite toda passaram a dar as suas aulas durante todo o dia.

A cada certo tempo pediam‑te uma quota extra por vários motivos: para a página web, para a visita do "mando máximo", para as inúmeras reuniões noutras cidades às quais estavas obrigado a assistir... Sutilmente sugeriam comprar livros e revistas que provinham da tipografia da Nova Acrópole Espanha, inclusive quando começaram a pôr‑se de moda as seitas comerciais tipo Oriflame e Herbalife o mando nacional L.S. envolveu‑se numa delas e os comandos locais sugeriam aos membros que se filiassem nesses negócios para ajudar o mando nacional.

Sempre te vão dizer que a sede precisa de dinheiro e sempre te vão sugerir que entres nalgum negócio pouco convencional e até descabido como forma de sacar‑te dinheiro. Muitos "retiros" são feitos com a história de que ali se vão dar aulas de "Os pré‑socráticos" ou de "Os estóicos", mas têm um custo e, obviamente, só os dita o mando nacional. No Equador o mando nacional L.S. passa o tempo a fazer viagens "culturais" ao Egito, e muitos membros da Nova Acrópole acabaram por pagar essas viagens, pois vendem‑te como uma experiência "especial" já que vais ser guiado por alguém que sabe muito da "parte esotérica do Egito".

Quando havia alguma reunião pública ou numa zona fora da área urbana atribuíam‑te o cuidado de um dos mandos e tinhas de estar atento a tudo o que ele pedisse ou precisasse. Se tinha algum problema para andar tocava‑te a transformar‑te em bengala; se lhe apetecia uma Coca‑Cola, compravas‑lha. Não se pedia ao dirigente, simplesmente comprava‑se, sem mais.

As exigências dos pagamentos mensais e todas as quotas extra para outras atividades começaram a ferir a economia de alguém que mal tinha saído do secundário e tentava orientar‑se na universidade. Todo o meu mundo começou a girar em torno da Nova Acrópole. Agora, todos os meus amigos estavam lá. Fora já não me restava nada.

Control de la vida personal y doble moral

Na Nova Acrópole dizem‑te o que deves e não deves ler, como vestir, como pensar, como reagir e até a música que deves ouvir. Ler diretamente um livro de Blavatsky praticamente resultava num pecado. E isto entende‑se só ao ler diretamente das fontes teóricas. Eles falam de Teosofia quase o tempo todo, mas tudo passado pelo "filtro acropolista". Além disso, se por acaso te ocorre mencionar ou ler algo de Krishnamurti colocam‑te sob observação, já que Krishnamurti, criado e formado nas entranhas da Sociedade Teosófica, acabou por fechar a escola da qual fora nomeado cabeça, ao entender que o caminho de cada indivíduo é único e não necessita das cadeias de outros para evoluir. Têm pânico da individualidade.

Há um controlo absoluto de todas as áreas da tua vida. Por exemplo, dentro das Forças Vivas as relações sentimentais manejam‑se de forma bastante controlada. Semanalmente fazem‑se reuniões de papel (uma de "cavaleiros" e outra de "damas") e dentro dessas reuniões deves anunciar oficialmente se tens um relacionamento com uma acropolista. A todos exigiam formalidade e seriedade nesses casos. No entanto, havia pessoas que tinham certas licenças para saltar esses valores ou princípios.

Aconteceu que um casal de Forças Vivas de idades semelhantes à minha acabou por esperar um filho. Esse homem anunciou três vezes oficialmente que ia casar‑se, lhe fizeram duas vezes despedidas de solteiro, e o sujeito nunca casou. Lembro‑me que a primeira vez que foram ao registo civil casar‑se, voltaram com a história de que estava fechado (depois soubemos que ele tinha obrigado a rapariga a mentir). No entanto, pouco depois, puseram esse homem como chefe do CS. Num grupo que te bombardeia por todos os lados com o honor, com a verdade, a ética e os valores, não podes colocar a cargo uma pessoa que pode ser tudo menos um exemplo de virtudes. À vista de quase todos na sede o sujeito ficou como um canalha que brincava com a rapariga, e mesmo assim não lhe tiraram o estatuto.

O mesmo chefe de filial (P.C.), quando esteve com problemas conjugais, andava muito alegre e entusiasmado com uma membro. P.C. tinha problemas com a esposa, mas começou a "buscar" consolo com uma membro ao ponto de já lhe ter falado de casamento. Cabe indicar que, quando chega o caso, inculcam‑te a ideia de que "aqui casam‑se e descasam‑se e não acontece nada", pois o importante é o ideal e a lealdade aos dirigentes por mais "gandallas" que estes sejam.

O objetivo de mencionar esses eventos é mostrar o duplo critério e a dupla moral que aplicam a tudo.

Afinal de contas, na Nova Acrópole só há 2 formas de ascender: ou és totalmente servil e fazes tudo o que te mandam, ou então, por outro lado, tens dinheiro ou influência social e política. Lembro‑me de como o diretor nacional e o de outra cidade se desdobravam por um sujeito que era sobrinho de um político e empresário, e embora não pudesse ir a aulas, davam‑lhe "instrução" por correspondência, esperando algum momento poder usar a sua posição. Até não há muito tempo tentaram meter‑se na política nacional e local, mas creio que não conseguiram que algum partido os apadrinhasse; porém, continuarão a procurar e a tentar. Devo indicar que um dos altos mandos daqui acabou por fugir pois, por ambição económica (e talvez política), terminou enredado num caso de corrupção em processos de seleção de pessoal para a polícia; tiraram‑no e esconderam‑no no Chile.

Cómo salí de Nueva Acrópolis

As amizades começaram a deteriorar‑se. Os atritos entre Forças Vivas não tardaram. Decidi sair do país por motivos pessoais e veio‑me um maremoto de críticas e reclamações porque, segundo o diretor nacional, eu não podia "largar‑me assim" deixando tudo. Aí conheci a verdadeira face dos dirigentes que se transformam quando não podem controlar‑te. Enfim, viajei, os projetos que pretendia não se concretizaram, e voltei ao meu país. Nunca regressei à Nova Acrópole.

Passei 5 anos naquele lugar. A manipulação psicológica a que te submetem é tão sutil que só te dás conta quando tentas fazer vida fora dos barrotes do "ideal acropolista". As pessoas que atuam como dirigentes podem ter toda a informação e títulos do mundo, mas moral e eticamente são monstros; chegam ao ponto de te fazer crer que tudo o que de mau te acontece é por tua culpa, podem ser tão vis que tentam usar a tua família para poder manipular‑te. As "amizades" acropolistas acabam por ser apenas espiões do "mando" (diretor chefe, etc.) imediato superior.

Pretendem gerir a tua vida social, a tua alimentação, as tuas leituras, as tuas finanças.

Durante estes mais de 20 anos longe da Nova Acrópole, em algumas ocasiões tentaram "trazer‑me de volta". O doloroso é que eu ainda acreditava que as pessoas que me procuravam o faziam por amizade. Nunca pretendi voltar e muito menos quando, por azares do destino, soube que tinham recebido a missão de trazer de volta os antigos membros porque tinham problemas para atrair gente nova.

Talvez o meu testemunho não seja algo dramático, no entanto reconheço muito do que outros ex‑membros contam e sei que falam a verdade.

Pedro, março de 2025